Cartas de João Daniel. Convenção Batista Regional. 30/11/1922
Um dos meios de comunicação e de registro das atividades daquela época de João Daniel era O Jornal Batista, mais a frente, irão surgir outros periódicos mais regionais, pela própria dificuldade deste Jornal abraçar todos os acontecimentos dos batistas brasileiros. João Daniel criará outros periódicos percebendo que o mesmo não dava conta das informações geradas com o aumento do campo batista. Percebe-se este fato, observando que suas cartas eram publicadas meses ou anos após o ocorrido.
Gostaria de destacar nesta carta um acontecimento comum naquela época, que era a rivalidade entre Católicos e Evangélicos. Desde o início da chegada de Missionários Americanos no solo brasileiro esta rivalidade se apresentou. Muitas vezes através de ações violentas que levaram a morte de crentes, mas que foram diminuindo com o passar dos anos.
A Carta a seguir é um pequeno relatório de como foi a Convenção Batista Regional que aconteceu na cidade de Gravatá, com a participação de todas as igrejas batistas de Pernambuco e Paraíba no mês de Outubro de 1922. Uma curiosidade, o nome da cidade deriva-se do tupi Karawatã ("mato que fura"), porque havia a predominância da planta da família das bromélias, e que também é conhecida por caraguatá, caroatá, caroá e gravatá.
Expirava o mês de Outubro quando nós com um numeroso grupo de obreiros de quase todas as igrejas batistas de Pernambuco e Paraíba, tomávamos passagem no trem da Great Western em demanda da cidade de Gravatá, afim de ali nos reunirmos com a Igreja local em Convenção Regional.
Gravatá é uma dessas cidades pouco faladas, mas que é uma das mais lindas desse belo rincão nortista. Está edificada numa extensa planície banhada por um regato que tem o nome de Pojuca. Dentre as montanhas que a cercam, destaca-se uma, em cujo ápice se leva uma cruz de madeira, já um pouco danificada pelo tempo, marco talvez da visita de algum capuchinho. Do alto dessa bela colina pode-se ver Gravatá quanto bela e encantadora.
Ali chegamos todos alegres, pela boa viagem, e dispostos a realizar o nosso trabalho, apesar dos boatos, de que ali nos esperava uma noite de S. Bartolomeu. Resolvidos mesmo a nos deixarmos massacrar por amor do Evangelho, saltamos. Foi grande a nossa admiração quando vimos que o povo gravataense continuava na mesma ordem que sempre o caracterizou.
Mas, haveria motivo para boatos desta natureza? Havia, digo eu. É que, há 15 dias, a Igreja Batista dali foi a uma das praças com o fim de realizar um conferência ao ar livre, quando uma comissão de católicos pediu ao Delegado de Polícia que acabasse com aquela reunião, que os incomodava. Aquela autoridade acedeu logo ao estranho pedido e, com palavras descortês e improprias de uma autoridade do século vinte, dispersou os crentes que, à sombra da nossa Constituição, pretendiam expor em público as suas ideias de moralistas e defensores do bem. Como o pastor da Igreja chamasse aquele seu ato um arbitrariedade e um atentado contra a nossa Constituição, ele respondeu que queria ser mesmo autoridade arbitrária! Pobre Brasil!
Até quando as tuas leis serão espezinhadas por homens de tal quilate! Porém, vamos ao caso. Como era de esperar, o pastor da Igreja solicitou garantias do Exmo. Snr. Dr. Sergio Loreto, digno Governo do Estado, que entregou o caso ao Desembargador Arthur da Silva Rego, Chefe de Polícia. Este, por sua vez, enviou um ofício à autoridade de Gravatá, ordenando-lhe que cercasse os batistas ali de todas as garantias, ao mesmo tempo responsabilizando-o por qualquer perturbação ou desacato que lhes fosse feito. Foi em torno desses acontecimentos que surgiu o boato de que nós seriamos esmagados ao pisar o solo gravataense. E isto por quê? Porque, diziam eles, nós íamos ali, não com intuito de fazer convenção, mas com o de atacar a Igreja católica. Era uma falsidade e uma contradição, por que nós, os crentes em Jesus, os quais mais temos trabalhado e estamos trabalhando para a pacificação, que temos dado ao mundo o melhor exemplo de paz e harmonia com todos os homens, como iríamos a Gravatá com o fim de atacar o templo católico!
Não sabemos se classificar isto como grande ingenuidade ou como perversidade de um refinado discípulo de Loyola. O que sabemos é que o objetivo era fazer uma guerra de morte aos cristãos evangélicos que ali pisassem. Porém, enquanto saboreava ele (o jesuíta dali) a sua vitória contra os crentes, chegava a ordem expressa do Dr. Chefe de Polícia para a autoridade local nos cercar de todas as garantias. O seu plano foi completamente frustrado; e agora é ele mesmo que pede que nada façam contra nós!
Graças a Deus não ouvimos nenhum insulto enquanto ali estivemos; a não ser um embriagado que se levantava nas pontas dos pés e gritava que, na qualidade de bom católico, não tolerava a nossa estadia ali. Fora disto, tudo correu maravilhosamente bem. Fomos visitados pelas principais pessoas dessa bela cidade, enquanto realizávamos os nossos trabalhos convencionais. Muitas famílias, vindo comparecer as nossas reuniões deram um destemido formal a quem espalhou tão infames boatos.
Ao terminarmos a nossa Convenção, foi lançado em ata um voto de louvor à sociedade gravataense, pela maneira cortes como nos tratou enquanto fomos hóspedes de Gravatá.
No dia 3 de novembro às 12 1/2 horas, estávamos nos despedindo bons e operosos irmãos daquela Igreja, e daí a poucos minutos, perdíamos de vista aquela boa gente. Posso afirmar que foi a melhor convenção a que já assisti; apesar do padre Pita, daquela participando o completo fracasso da nossa convenção. Este outro reverendo, padre Machado ao receber o telegrama do seu colega, escreveu um pavoroso artigo numa das folhas desta cidade, comentando o nosso suposto fracasso.
Ora, nenhum destes senhores assistiu à nossa Convenção apesar de terem direito a isto, e como comentam com tanto entusiasmo o nosso fracasso? Eu os aconselho a que de outra vez assistam aos nossos trabalhos para falarem de cátedra. E para que os reverendíssimos não soltem mais reverendíssimas desta qualidade, aconselho que leiam com muito cuidado o versículo 44 cap. 8 de S. João.
A nossa Convenção foi uma bênção.
Agradecemos a Deus por ela e esperemos grandes e abundantes frutos para os celeiros da nossa região.
João Daniel
Recife, 11 de Novembro de 1922.
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