Resumo de 3 cartas sobre a vida do Pastor João Daniel

 Testemunhas oculares da vida do Pastor João Daniel

Essas três cartas são registros oculares da vida pastoral do Pastor João Daniel. As palavras proferidas são do Pastor Antonio Marcelino de Oliveira[1] (a partir de entrevista a sua filha Gedalia), que resume sua vida pastoral no Rio de Janeiro, trechos de uma carta enviada para seus filhos de Eunice[2] e uma carta em sua homenagem pelo Pastor Ebenézer Cavalcanti[3], que foi sua “ovelha” em Belém, batizado e orientado por ele para o ministério pastoral.
Iniciarei com a cronologia do Rio, e terminarei com o seu ministério em Belém. Do Pastor Antonio lemos que:
Do Pastor João Daniel, consegui, por gentileza de sua filha Gedalia, alguns dados de uma vida exemplar. (ele irá discorrer sobre uma cronologia que já consta na biografia dele, por isso irei escrever somente sobre o Rio). (...) no Rio assumiu o pastorado das Igrejas Batistas de Marechal Hermes e Anchieta. Nesta ficou pouco tempo, para dedicar-se de corpo e alma ao ministério em Marechal e na direção do Instituto Educacional M. Hermes, por ele fundado. Com muita cultura, experiência e dinamismo não lhe foi difícil impor-se como obreiro excepcional. Foi em princípio de 1945 que o autor destas linhas teve o privilégio de o conhecer, passando a ouvi-lo com assiduidade e admiração, longe porém de pensar que viria a ser um dia o seu sucessor no pastorado da Igreja Quinze de Novembro.
J. Daniel assumiu cargos de importância, que entre outros, exerceu, por alguns anos, o de Secretário da Junta Cooperadora, atualmente Junta Executiva da Convenção Batista do Distrito Federal. Em agosto de 1945 exonerou-se do pastorado da Igreja de Marechal Hermes e no dia 15 de novembro funda a Igreja Batista Quinze de Novembro. Com um ano na direção desta, organizou a próspera grei de Coelho da Rocha, no Estado do Rio, ficando em direção de ambas. Em 1950 assumiu mais um pastorado: o da Igreja Batista em Belford Roxo.
No Estado do Rio desmanchou-se em atividades. Foi presidente da Convenção Batista Suburbana, um dos fundadores e professores da Fundação Teológica Suburbana; contribuiu decidido e eficaz para a organização do Orfanato de Mazomba. Via-se constantemente às voltas com fortes dores de cabeça, tão fortes que por vezes exclamava: - “Esta dor de cabeça ainda me mata!”(...) Faleceu em 20 de agosto de 1952. Deixando uma lacuna sensível no ministério batista brasileiro, porém atrás de si deixou também uma folha de bons serviços prestados à Pátria e à denominação Batista, e, para honrar-lhe o nome, uma família unida e em plena atividade na Igreja Batista Quinze de Novembro que, reconhecida, lhe presta tardia porém sincera e merecida homenagem. “O Senhor deu, o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor”.
De Eunice podemos conhecer um pouco mais da sua vida:
A “Igreja Quinze de Novembro”, o “Lar Rosália – Daniel” e o “Instituto Educacional Marechal Hermes”, para nós, as crianças crentes, eram a mesma coisa... Tudo igual. Saía-se de um território e esgueirava-se para outro, sem nenhum esforço e sem nenhum constrangimento. Acabamos por invadir a privacidade de vocês. Principalmente a intelectualidade e cultural.
Devassamos a sua Biblioteca. O “Tesouro da Juventude”, o “Mundo da Criança”, as “Curiosidades”, o “Peregrino”, o “Paixão pelas Almas”, compêndios de Inglês, Dicionários, Revistas, tudo nos era emprestado, “sem registro de entrega e sem data de retorno”. “Ler é a chave que destranca as portas do conhecimento” – ele dizia sempre. Pastor Daniel era o maior incentivador da leitura que já conheci. De tudo o que se lia, perto dele, ele exigia, não apenas a compreensão, como também a interpretação correta do conteúdo lido.
João Daniel e família nos apresentaram o mundo da Cultura através de intercâmbios culturais, apresentações lítero-musicais no “Souza Marques, peças de teatro, saraus musicais e audições de instrumentos, os “Concursos de Declamação, e as chamadas “Festas Sociais”. (...) De vez em quando nós éramos vocês em trio ou em quarteto com seu pai e Onésima em a “Suprema Paz é Jesus” ou outras músicas.
Pastor Daniel era o nosso alvo maior. Aprendemos a praticar a sua habitual ginástica pelo Rádio Nacional, minha mãe adquiriu um daqueles famosos MAPAS com as sugestões e a postura correta dos exercícios, e minha irmã aprendeu a costurar com a D.Rosália. Fizemos muitas coisas boas em outras igrejas e com “amigos tão chegados como irmãos”, mas a Família João Daniel do Nascimento e a Igreja Quinze de Novembro são especialíssimas!
Vocês cumpriram os seus ministérios e completaram a obra que provavelmente, seu pai tenha deixado incompleta. O Senhor sabia que podia contar com vocês!
Por sua vez, do Pastor Ebenézer lemos:
Batizou-me no dia 6 de maio de 1928, na Primeira Igreja Batista de Belém do Pará. Foi meu dileto pastor, guia esclarecido, modelo de pregador e meu primeiro herói admirado nas linhas do Evangelho. Seus sermões inspirados, ungidos e eloquentes, refeito das Sagradas Letras, deram-me o lastro de instrução bíblica fundamental e fizeram de mim um batista da velha guarda. Eu tinha uma devota admiração por aquele homem de Deus. Era com ansiedade que aguardava os dias de culto, para ouvi-lo. (...) Em João Daniel, porém, havia traços daquele comportamento mais espontâneo, mais simples e mais naturais. Emergiam do seu admirável tipo humano, accessível sem vulgaridade, a guardar sempre uma linha invisível de distância sem ofensa.
A mocidade da igreja era sua paixão pastoral. Trazia na alma nobre uma chama comunicativa, uma seiva de vida renovada, um calor de entusiasmo sadio. Essas qualidades transbordavam em tudo quanto fazia na igreja, e ele as canalizava, em larga medida, em favor da mocidade. Fui um dos beneficiários de sua atividade pastoral compreensiva e vigilante. Empregado que eu era da Casa Bancária Moreira, Gomes & Cia. Logo às sete da manhã encontrava-me na agência geral dos Correios para retirar a correspondência. Daniel, já àquela hora, barbeado e bem posto – sempre bem posto ali se encontrava para abrir a caixa-postal da igreja, salvo engano, a de n°. 565. E seguia-se o seu dia de visitas pastorais. À noite íamos-nos encontrar numa das congregações dos arrabaldes paraense: Chaco, Pedreira, Umarizal, casa da Dra. Emília Gama etc. Era ele o primeiro a chegar à igreja. Sempre conheci grandes congregações na sua igreja, inclusive às quartas-feiras, nos cultos de oração, durante os quais realmente orávamos. Após o culto, dirigia ele a classe de professores, ensaiava hinos novos com a igreja, ou dirigia estudos bíblicos. Aos domingos pela manhã, muito bem vestido de branco, subia ao púlpito. Comentava o relatório da Escola Dominical, fazia avisos sem monotonia, dirigia os cânticos e pregava com poder. À noite, seu colarinho bem engomado e lustroso contrastando com a roupa azul-marinho, dava-lhe um ar de evangélica dignidade. Seu estilo vigoroso, suas imagens apropriadas, suas descrições sóbrias e seu poder de convicção encorajavam-nos a ouvi-lo sempre com prazer e entusiasmo. Vivia do ministério e para o ministério, e tinha do ministério o mais elevado conceito. Frequente vezes aludia às glórias e as lutas do ministério. Deu-me do ministério uma noção clara, objetiva e gloriosa. Tinha acentuado espírito missionário, sendo ele próprio um incansável missionário através de longas e penosas viagens, das quais dava inspirador relatório à sua igreja. Ninguém melhor do que ele para fazer avisos, que nem chegavam a ser anúncios, senão breves e incisivos estímulos. Certa vez, sem me prevenir, anunciou publicamente que eu iria pregar em certa congregação. Estremeci. Corei. Secou-se-me a língua no céu da boca. Àquele tempo eu lia as “Leituras Cristãs”, de George Howes. Fui saturar-me num daqueles esboços, na tola tentativa de decorar uma mensagem. Quando verifiquei que João Daniel não estava na congregação, soltei as rédeas, para logo depois sofrer o impacto de uma quase inibição quando ele entrou, semblante alegre e encorajador. Depois desse primeiro ventre do grande peixe, fui reagindo e adquirindo confiança, pois o meu herói sabia guiar sem asperezas.
(...) Corajoso, leal, sincero, honesto e senhor de si, nunca se deixava arrastar por qualquer tempestade. Ele mesmo conduzia o barco a porto seguro. Foi vítima da inveja e da intriga, mas soube reagir com dignidade. Creio que aquela alma de artista e de esteta deverá ter tidos seus dissabores íntimos, que ele soube dominar a favor do Evangelho. Nunca lhe ouvi uma palavra de amargura nos sofrimentos. Não que fosse um tolo conformado. Tinha fidalgas qualidades de um nobre muito acima da vulgaridade e do terra-à-terra. Daí a incompreensão de uns tantos, que para julgar um homem só se servem de um estalão convencional. (...)
Aprendi com Daniel a boa prática de dar relatórios anuais completos e exatos à igreja, inclusive para confessar fracassos. Jamais esquecerei os cultos de vigília na Primeira Igreja de Belém, e deles conservo ainda em minha igreja, em cada 31 de dezembro, o cântico do velho hino “Estrela Dalva”.
Daniel levou muitas almas a Cristo, inspirou muitos jovens para o Ministério, organizou igrejas, soergueu muitos desviados, cooperou em muitas empresas do Reino, ensinou a verdade de Deus, foi um batista convicto. No Pará, consolidou a Primeira Igreja. Evitou as infiltrações melosas e açucaradas de missionários da Missão de Fé – dos Brandons, dos Jones, e de outros grupos assemelhados aos darbistas, numa época de pouca assistência da Denominação àquelas plagas remotas do vale amazônico.
Relembrando com ternura o pastor amado da minha mocidade, evoco também àqueles dias de nobres experiências na igreja, onde Cristo enchia os corações. Sentíamos santo fervor nos cultos. Vivíamos isentos da corrupção do mundo. Empregávamos nosso tempo na obra do Evangelho. Tínhamos no pastor um amigo certo, um conselheiro inteligente, um guia prudente e sério. Ele nos arrastava para as pregações ao ar livre e nas congregações e na Penitenciária do Estado. Havia sempre batismos na igreja, realizados com solenidade impressionante. Aquele homem quase negro, alto, magro, testa altaneira, olhar vivo e inquiridor, voz simpática, mãos finas e alongadas, porte fidalgo – era um verdadeiro “gentleman”. Por vezes, no púlpito, atingia a alturas de genialidade. Da genialidade de sentimentos delicados e de pensamentos sublimes. Arrebatava, comovia, convencia. A Dra. Emília Gama – matrona de profunda experiência humana – ao ouvir, na igreja, certo pregador famoso, comentou num grupo em que eu me encontrava: “Prefiro o nosso”.
Estas poucas memórias vão saindo ao bater do teclado, sem plano e sem ordem, que são apenas memórias de um coração agradecido àquele querido JOÃO DANIEL DO NASCIMENTO, a quem considerei meu pastor até o fim de sua vida terrena. (...)






[1] João Daniel do Nascimento, Antonio Marcelino de Oliveira. Carta ao JB em 5/04/1956, p.4.
[2] Eunice foi membro da Quinze de Novembro e amiga de seus filhos. Carta de Belo Horizonte, 24/11/2008.
[3] Minhas Memórias de João Daniel Nascimento, Ebenézer Cavalcanti. Carta ao JB em 2/08/1956, p.10.

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