Carta Os Batistas no Pará, Santarém. 27/09/1928
Passou por Belém o velho e intrépido missionário E. A. Nelson, com a sua dedicada esposa D. Ida que vai fixar residência em Manaus. É de esperar que as condições do trabalho batista na Amazônia melhorem consideravelmente com o contingente valioso desse obreiro de abnegação provada.
Durante oito dias de permanência em nosso meio deu-nos o irmão Nelson valiosíssimas mensagens, tanto à Primeira como à Igreja de Villa Isabel.
D. Ida, ao pisar o solo paraense, saudou-nos na língua de Camões com tanta desenvoltura e clareza que nem parecia ter estado 19 anos ausente da terra das palmeiras. Coisa admirável! Está mais moça e mais forte. Foi um milagre. "Vamos começar uma nova vida de trabalhos na Amazônia". disse-nos ela sorridente.
Na opinião bem fundada de alguém, Eurico Nelson é o Salomão Ginsburg do extremo norte. Assim, os batistas do Vale Amazonas estão numa nova perspectiva com a chegada do velho campeão. Que ele seja bem usado por Deus, como tem sido, na grande obra da evangelização deste uberrimo vale, tão rico de vegetação, água e produtos naturais, porém tão desprovido do Evangelho e de evangelizadores!
Em nossa última viagem bimensal as colônias de Castanhal encontramos o grupo que ali milita na mesma disposição e dedicação de sempre. Desta vez passamos dois dias com os laboriosos colonos. Estão no tempo da derrubada, ou outra árvore secular, cujo estrondo é como a lamentação sinistra dum gigante que se abate. É esta uma das melhores diversões do colono. Como Deus é bom! Da aridez da mais rude profissão Ele sempre reserva ao profissional algo de agradável. Um não sei que de atraente.
Volta a Castanhal, inaugurámos o novo tanque como o batismo dos três conversos seguintes: Odilon X.M., D. René L. e Raymundo M.
Uma coisa certa podemos dizer dessa pequena igreja: é que ela se está impondo no conceito do público castanhalense agora mais do que nunca. Pela primeira vez na história registrou na Escola Dominical uma frequência de 56 pessoas e 12$ de coleta, sem para isso tenha havido o menor esforço especial. Dentre a boa sociedade de Castanhal contamos algumas pessoas interessadas. Esperamos, quando for possível, mudar a casa de cultos para a rua principal. O lugar do exército batista deve ser na linha de frente.
Na primeira Igreja de Belém celebramos o dia de Missões Estrangeiras com muito êxito, dada a condição do nosso povo aqui.
Pela manhã, além do irmão José de O., ativo superintendente da Escola Dominical, falou com muita eloquência sobre o assunto o inteligente jovem Ebenezer Cavalcanti, elemento de valor na U.M.B. Depois falamos sobre a história das missões modernas, frisando especialmente as figuras inconfundíveis de Guilherme Carey, os Judsons, Lutero, Rice, etc. Terminamos mostrando os grandes resultados e oportunidades do nosso trabalho na Lusitania. À noite fizemos levantar uma coleta para auxiliar a matar o "déficit" da Junta, que rendeu 100$, importância que estamos remetendo ao irmão Thomaz L.da C.
Na mesma noite foram imersos nas águas os irmãos: Antonio A., Sandoval A, D. Dulcina V.G. e senhoritas Ilda S. e Abigail O. Foi uma noite memorável!
Dois meses e poucos dias apenas faltam para a reunião da Convenção Batistas da Amazônia com a Primeira Igreja aqui e já estamos notando uma certa ansiedade da parte de alguns irmãos e igrejas, notadamente do Campo Paraense. Tal ansiedade tem sua explicação no fato de que os irmãos deste campo, na sua maioria absoluta, ainda não tiveram o privilégio de assistir a uma assembleia dessa natureza. Temos olhado esta agitação nas igrejas com um certo prazer, porque isto é uma nova prova real da necessidade de que o nosso povo está sentindo de organizar-se e as igrejas de cooperarem mais fraternalmente umas com as outras.
Não sabemos, porém se haverá nos dois campos convencionais qualquer igreja que esteja alimentando a infeliz ideia de negar sua cooperação a tão útil organização; se houver, deve, sem perda de tempo, abandonar tal ideia. A experiência tem-nos mostrado que o indivíduo que se isola dos que tem vida semelhante tende a desaparecer; a mesma coisa se dá com as igrejas. Que nos dias 14, 15 e 16 de novembro próximo possamos ver os mensageiros de todas as igrejas dos dois colossais Estados do extremo norte se estreitarem num abraço franco e sincero, panejando por sobre todos o lábaro fraternal da Convenção da Amazônia!
J. Daniel
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